terça-feira, 15 de março de 2016

Dieta Paleo engorda? Um grande exemplo de como não fazer ciência




Como seres humanos, temos uma forte tendência de acreditar e agir de acordo com nossas ideias pré-concebidas.

Evolutivamente falando, essa provavelmente foi uma adaptação importante para a nossa sobrevivência. Porém, hoje, esses preconceitos causam mais problemas do que trazem soluções — em qualquer contexto, inclusive na Nutrição.

Apesar da evolução da nutrição como ciência, e também do maior acesso à informação que temos atualmente, as ideias que foram sedimentadas nas últimas décadas ainda prevalecem. Nesse caso, estamos falando, por exemplo, da predominância das dietas low-fat e do medo da gordura saturada e do colesterol.

E quando falamos de ideias pré-concebidas na ciência, é inevitável que o conceito de viés de confirmação venha à tona. É impressionante como a pesquisa científica aparentemente vem sendo cada vez mais contaminada por preconceitos e pela necessidade que alguns “cientistas”* têm em querer provar suas ideias  muitas vezes só para contrariar o que os bons estudos vêm apresentando. 


*Coloco o termo cientista entre aspas porque, na minha forma de ver, cientista é aquela pessoa que realmente se propõe a fazer ciência. E isso necessariamente implica em não deixar que ideias pré-concebidas influenciem, por exemplo, a concepção, a condução e a interpretação de estudos científicos. Aqueles que não seguem isso podem até ser considerados pesquisadores, mas não cientistas. 


Um novo estudo aparentemente mostrou que uma dieta paleo pode engordar e causar problemas de saúde! Hoje, 15 de março de 2016, faz exatamente um mês que o trabalho foi publicado, e por isso sei que estou um pouco atrasado pra comentar sobre ele. Apesar disso, esse estudo, assim como sua repercussão, pode nos ensinar algumas lições valiosas sobre ciência, porque essa história é um grande exemplo de como não fazer ciência.


Quais são os equívocos relacionados ao estudo?

O mais curioso de tudo é que, para apontarmos as (graves) falhas de conceitos e interpretação que foram cometidas nesse trabalho, nem é necessário comentarmos o estudo em si. As críticas não são bem sobre os procedimentos experimentais, mas sim sobre sua concepção teórica e sua interpretação e implicações.

Basicamente, as únicas coisas que precisam ser mencionadas de antemão são: a) o estudo, que foi feito em camundongos NZO, comparou uma dieta rica em carboidratos (grupo controle) a uma dieta pobre nesse nutriente (grupo low-carb/high-fat); b) os animais no grupo low-carb apresentaram ganho de gordura corporal e prejuízos metabólicos, como piora na sensibilidade à insulina.

Agora vamos ao que interessa:

1) A palavra ‘paleo’ nem é mencionada no estudo (sim, isso mesmo!). Se você, como pesquisador, quer estudar a dieta paleo, por que o termo ‘paleo’ não aparece no seu trabalho? Por que no estudo não foram mencionados e discutidos os diversos estudos sobre dieta paleo que foram publicados nos últimos anos? Simplesmente porque o estudo em questão não foi sobre a dieta paleo. Inclusive, seria muito pouco provável que o periódico no qual essa pesquisa foi publicada, o Nutrition & Diabetes, que é uma revista científica séria e de bom nível — do grupo Nature —, aceitasse o artigo caso o termo ‘paleo’ tivesse aparecido. E os próprios pesquisadores sabem que, do ponto de vista científico, esse não foi um estudo sobre dieta paleo; caso tivesse sido, eles certamente usariam a palavra ‘paleo’ em algum trecho (ou vários trechos) do estudo.

2) As dietas paleo não necessariamente são low-carb. A ideia de que as dietas paleo sempre são low-carb é algo erroneamente propagado, às vezes até mesmo pelos seguidores da dieta. E esse foi um equívoco cometido pelos pesquisadores do estudo, ao extrapolarem, em entrevista (vide o fim do post), que dietas low-carb/high-fat e paleo são a mesma coisa. Pra quem não sabe, a classificação de uma dieta como ‘paleolítica’ está ligada essencialmente aos grupos alimentares consumidos e não à composição de macronutrientes. Normalmente há, sim, uma restrição de carboidratos, que pode ser moderada ou mais “severa”. Porém, essa não é a regra: a dieta dos habitantes de Kitava, por exemplo, com aproximadamente 70% das calorias provenientes de carboidratos, mostram que você pode ter uma dieta paleo rica nesse nutriente.

3) O foco da dieta paleo é qualidade, e não quantidade. O objetivo principal desse padrão alimentar é restringir ao máximo os alimentos processados e “industrializados”, abrindo espaço para o consumo de hortaliças, tubérculos, sementes, oleaginosas, carnes, ovos e frutas. A composição de carboidratos, proteínas e gorduras pode ser importante, mas ela vem como um fator secundário quando comparado à qualidade da alimentação. E advinha o que os pesquisadores fizeram? Ofertaram uma dieta semissintética (leia-se: ingredientes purificados e isolados, como caseína, sacarose, óleo de canola e manteiga de cacau) aos pobres camundongos do grupo low-carb, enquanto ofereceram dieta 'chow' (composta por alimentos fontes de carboidratos, mas que são comida de verdade: trigo, leite em pó, soja, peixe em pó) ao outro grupo. Independente da composição de macronutrientes, é possível dizer que a dieta do grupo controle foi muito mais ‘paleo’, uma vez que apresentou um qualidade nutricional bem superior e um grau de processamento muito menor, do que a dieta do grupo low-carb.

(Clique aqui para ver os detalhes sobre a composição das dietas do estudo).

4) Os efeitos da dieta paleo em seres humanos são extremamente positivos. A ciência vem mostrando, de maneira mais consistente do que para qualquer outra dieta, que a dieta paleo leva à perda de gordura corporal e à melhora da saúde em seres humanos. Por isso, mesmo que esse estudo tivesse mostrado que um padrão alimentar paleo pudesse causar problemas em animais (o que muito, muito provavelmente também não ocorreria), os estudos em humanos continuariam sendo evidências infinitamente superiores, em comparação aos estudos em animais, de que as dietas paleo, para a nossa espécie, ainda sim são capazes de conferir inúmeros benefícios.

5) Os estudos com dietas low-carb consistentemente mostram que elas melhoram a composição corporal e, também, diversos marcadores de saúde. E isso é incontestável. Assim, o raciocínio utilizado acima também vale aqui: mesmo que o estudo tivesse verificado que dietas low-carb causam prejuízos em animais, os trabalhos científicos em humanos, que mostram diversos benefícios com dietas low-carb, são aqueles nos quais as nossas práticas devem ser embasadas.


Citações surreais do pesquisador ‘chefe’ do estudo

“Dietas low-carb/high-fat estão ficando mais populares, mas não há evidências científicas de que essas dietas funcionam. Na verdade, se você colocar um indivíduo sedentário nesse tipo de dieta, é provável que essa pessoa ganhe peso”. [link]

(Ou ele nunca fez uma busca de artigos sobre dietas low-carb, ou ele simplesmente quer ignorar a literatura científica. Cientista é quem faz ciência, e fazer ciência não significa simplesmente pesquisar, mas também ser o mais imparcial possível na busca pela verdade científica).

“Somos orientados ingerir zero de carboidratos e muita gordura na dieta paleo”. [link]

(Acho que ninguém, literalmente, nunca disse isso sobre dietas paleo).

“... Não temos evidências científicas suficientes para dar suporte a essas dietas, principalmente em pessoas com pré-diabetes e diabetes”. [link]

(Não? Esses são os indivíduos que mais podem se beneficiar com dietas low-carb, e evidências que sugerem isso não faltam).

Se você assiste ao vídeo com comentários sobre os resultados do trabalho, até parece que o estudo foi um ensaio clínico randomizado em seres humanos, conduzido por vários anos, e não um simples estudo com animais:




Isso não é ciência.


Considerações finais

O fato de os pesquisadores insistirem em comparar a dieta low-carb/high fat do estudo à dieta paleo demonstra a tendenciosidade desse trabalho. É mais um exemplo claro de viés de confirmação, em uma situação na qual as ideias pré-concebidas, ou a lógica mal desenvolvida, desses pesquisadores claramente influenciam a interpretação dos resultados da pesquisa.

A verdade é que o estudo em questão simplesmente verificou que uma dieta altamente purificada, composta por ingredientes isolados — essencialmente gorduras refinadas, açúcar refinado (não tanto, mas numa quantidade bem razoável) e um mix de vitaminas e minerais —, é capaz de levar ao ganho de peso e ao desenvolvimento de resistência à insulina em animais. E isso não é nenhuma novidade; na verdade, esse é o protocolo padrão pra engordar animais.

Ou seja, o estudo não teve nada a ver com dietas low-carb no mundo real, e muito menos com dietas paleo. Até porque nenhuma delas engorda.

Quer dizer, a não ser que você seja um camundongo da Nova Zelândia (consumindo uma dieta "paleo" que não é paleo).



Atualização (27/06/2016): um comentário do pesquisador Nathan Cofnas, na revista científica Nutrition & Diabetes — a mesma que publicou o estudo —, levantou mais um ponto interessante. Considerando que a dieta paleo deve se aproximar ao que a espécie consumiu durante sua evolução, a dieta "paleo" experimental que causou ganho de peso e complicações metabólicas nos camundongos não tem nada a ver com a dieta ancestral desses animais. Na verdade, a dieta do grupo controle é que deveria ser considerada a dieta "paleo" do estudo, uma vez que ela, com maior quantidade de carboidratos e menor quantidade de gorduras, se assemelha muito mais ao que os camundongos consomem em seu habitat natural. Portanto, a verdadeira dieta "paleo" do estudo, para esses animais, na realidade foi benéfica — e não prejudicial, como amplamente divulgado. E mais uma vez repito: é bem provável que essa falha de interpretação pelos autores do estudo original também seja decorrente do bom e velho viés de confirmação.


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