terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Café faz mal à saúde cardiovascular?




O café está entre os alimentos mais controversos. Tanto é que, se procurarmos por “café faz mal” ou “café faz bem” no Google, a maioria dos resultados vai vir na forma de pergunta, e não de afirmação. Ou seja, realmente existem dúvidas sobre os efeitos, positivos e negativos, que essa bebida pode ter sobre a nossa saúde.

Mas essas incertezas persistem principalmente quando estamos falando sobre os efeitos do café na saúde geral, sem necessariamente entrarmos num assunto em particular, com algumas pessoas considerando o café como um superalimento e outras considerando-o como uma bebida prejudicial. Porque, quando entramos em áreas mais específicas, o tom da conversa pode mudar um pouco (ou muito). Isso é verdade especialmente quando o assunto é saúde cardiovascular: é mais comum ouvirmos falar que o café traz mais problemas do que soluções.

Nesse caso, acredito que a imagem do café como um alimento que pode ser prejudicial à saúde cardiovascular tem a ver com a ideia de que a bebida levaria ao aumento na pressão arterial. Como nos acostumamos a ouvir dizer que a elevação desse parâmetro é algo necessariamente ruim, criou-se a ideia de que o café pode fazer mal para os vasos sanguíneos e para o coração.

Sendo assim, podemos começar a destrinchar essa história a partir desse ponto.


Café e pressão arterial

Felizmente, existem ensaios clínicos randomizados que testaram o efeito da ingestão de café sobre a pressão arterial. Nas duas meta-análises mais recentes que incluíram esses ensaios clínicos, os pesquisadores observaram que o consumo de café não leva ao aumento da pressão arterial quando comparado a tratamentos controles, e que, na verdade, pode até haver uma leve tendência de diminuição desse parâmetro.

Por outro lado, uma meta-análise mais antiga, de 2005, verificou que a ingestão de cafeína, na forma de suplemento, pode causar um pequeno aumento na pressão arterial, com elevação média de 4,2 mmHg na pressão sistólica e 2,4 mmHg na pressão diastólica. Uma das meta-análises mais recentes notou que esse efeito da cafeína acontece especialmente em pessoas com hipertensão, e que pode permanecer por mais de 3 horas, embora não seja duradouro caso a ingestão não seja contínua.

A partir desses dados, é seguro dizer que, no geral, a ingestão de café não leva a aumentos na pressão arterial. Mas e a cafeína? Ok, talvez a cafeína cause uma elevação aguda e transitória na pressão; mas, mesmo que persistisse, seria um aumento muito pequeno.

Além do mais, o café não se resume à cafeína. Existem centenas de outras substâncias presentes no café. E esses diferentes compostos, isoladamente ou interagindo entre eles, parecem contrapor qualquer efeito “negativo” que a cafeína poderia vir a causar na pressão arterial. Isso explicaria por que a ingestão de café não leva ao aumento na pressão arterial mesmo com a possibilidade de a cafeína elevar agudamente esse parâmetro.


Café e doenças cardiovasculares

Saber que a ingestão de café (não) influencia a pressão arterial é interessante, e é o primeiro passo para imaginar que, talvez, o café não tenha um efeito negativo sobre o risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Mas só isso não é suficiente, porque saber apenas como se dá o efeito do café sobre a pressão arterial não nos diz exatamente como a bebida afeta o risco de uma pessoa ser acometida com um infarto ou um derrame, por exemplo. Esse é um ponto importante a ser levantado porque as doenças cardiovasculares estão relacionadas a uma série de fatores e parâmetros diferentes, e não apenas à pressão arterial de um indivíduo.

Por exemplo, considerando um cenário em que o café teria um efeito negativo em algum outro fator de risco associado a doenças cardiovasculares (mesmo sendo um parâmetro não conhecido), seria possível que a bebida levasse ao maior risco cardiovascular mesmo sem causar um aumento na pressão arterial. Atualmente não se sabe se tais fatores de riscos, que poderiam ser negativamente afetados pela ingestão de café, de fato existem, ou por quais mecanismos fisiológicos eles poderiam atuar. Mas é claro que não podemos descartar essa possibilidade.

Por isso, mais importante do que saber como o café influencia isoladamente o fator de risco A ou o fator de risco B é saber como se dá a relação entre a ingestão de café, ao longo dos anos, com o risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares.

Assim como quando queremos conhecer o efeito de outros alimentos sobre a saúde, o ideal é basearmos nossa avaliação em estudos do tipo ensaio clínico. Infelizmente, como de costume, não existem — e provavelmente nunca existirão — trabalhos científicos de médio ou longo prazo que compararam a ingestão de café a um tratamento controle para determinar o efeito dessa bebida sobre a saúde cardiovascular. Dessa forma, temos que usar estudos do tipo coorte para conhecermos a relação entre o consumo de café e o risco de mortalidade ou eventos cardiovasculares nas populações estudadas.

A boa notícia é que o assunto ingestão de café e saúde é de grande interesse da comunidade científica, então existem muitas meta-análises de estudos de coorte a respeito dessa relação.

Para o derrame, as duas meta-análises que avaliaram especificamente essa questão encontraram uma associação inversa entre o consumo de café e o risco dessa doença. A primeira delas verificou que a ingestão de 2 a 6 xícaras por dia estava associada a um menor risco de derrame, enquanto que a outra meta-análise chegou à conclusão de que 4 xícaras ou mais por dia estavam relacionadas à menor probabilidade de desenvolvimento de derrame.

Já quando falamos especificamente sobre a associação entre a ingestão de café e o risco de doença cardíaca (infarto) ou doenças cardiovasculares em geral, temos, do início dos anos 2000 até 2017, pelo menos cinco meta-análises que avaliaram essa relação. Nenhuma delas mostrou que o café poderia aumentar o risco de desenvolvimento desses problemas cardiovasculares. Na verdade, assim como observado para o risco de derrame, as pessoas que bebem quantidades moderadas ou até elevadas de café apresentam tendência de menor chance de desenvolvimento e de mortalidade por infarto e doenças cardiovasculares em geral.

Os links para as meta-análises:


1. Coffee consumption and risk of coronary heart disease: a meta-analysis

2. A meta-analysis of prospective studies of coffee consumption and mortality for all causes, cancers and cardiovascular diseases

3. Long-term coffee consumption and risk of cardiovascular disease: a systematic review and a dose-response meta-analysis of prospective cohort studies

4. Coffee consumption and mortality from all causes, cardiovascular disease, and cancer: a dose-response meta-analysis

5. Coffee consumption and risk of all-cause, cardiovascular, and cancer mortality in smokers and non-smokers: a dose-response meta-analysis


Além dessas, em 2016 foi publicada uma meta-análise que avaliou a relação entre o consumo de café e o risco de mortalidade especificamente em pacientes que já haviam sofrido infarto. Novamente, as pessoas que bebiam quantidades baixa ou moderada/alta, quando comparadas a pessoas que não ingeriam a bebida, apresentaram um menor risco de mortalidade. A ingestão de 2 xícaras ou mais por dia (moderada/alta), em relação à ingestão de apenas 1 xícara por dia (baixa), também foi associada a uma menor chance de mortalidade.

Vale sempre ressaltar que todos esses resultados são de meta-análises de estudos observacionais. Por isso, estamos falando de associações, e não de relações de causa e efeito: com base apenas nesses dados não podemos chegar à conclusão de que a ingestão de café de fato reduz o risco de doenças cardiovasculares. Apesar disso, considerando que existe, no mínimo, uma tendência de associação inversa entre as variáveis que estamos analisando, podemos afirmar com segurança que a chance de o consumo de café influenciar negativamente o risco de doenças cardiovasculares é quase zero.

Corroborando essa ideia, temos também alguns ensaios clínicos, de curto prazo, que avaliaram o efeito do consumo de café sobre outros parâmetros vasculares, como a dilatação mediada pelo fluxo (FMD, do inglês flow-mediated dilation) e o óxido nítrico — que basicamente medem a capacidade de dilatação dos vasos sanguíneos, um dos pontos mais importantes (mas não o única) a ser levado em consideração quando estamos falando de saúde vascular.

Um estudo de 2016 mostrou que a ingestão diária de café, por oito semanas, não afetou a FMD ou a concentração de substâncias derivadas do óxido nítrico no sangue dos participantes. Por outro lado, outro trabalho do mesmo ano verificou que, pelo menos agudamente, até 5 horas após a ingestão de café, é possível que a bebida leve a um aumento na FMD — o que seria um efeito desejável na função vascular —, e que esse efeito seria mediado, pelo menos em parte, por uma substância chamada ácido 5-cafeoilquínico (um dos tipos de ácido clorogênico do café).


Considerações finais

A verdade é que a resposta para o título desse texto provavelmente nunca vai ser uma certeza absoluta — assim como acontece com várias outras questões que envolvem saúde e nutrição. Para que fosse possível afirmar algo com mais convicção, teríamos que ter ensaios clínicos, de duração prolongada, para testar o efeito direto da ingestão de café sobre desfechos de interesse, como eventos cardiovasculares ou mortalidade por doenças cardiovascular. Mas estudos desse tipo provavelmente nunca serão feitos, então ficaremos sem uma resposta mais precisa.

No entanto, considerando as diversas meta-análises de estudos de coorte que já avaliaram a associação entre o consumo de café e o risco de derrame, infarto e doenças cardiovasculares em geral, e os resultados apresentados por elas até o momento, podemos concluir que existe uma grande chance de o café, no mínimo, ser neutro em relação a seu efeito sobre a saúde cardiovascular.

A associação inversa verificada entre duas variáveis em estudos observacionais, assim como em meta-análises desse tipo de estudo, pode ser bastante útil para nos fazer compreender como funciona a relação entre elas. Isso acontece porque, se houvesse uma relação de causa e efeito entre café (causa) e doenças cardiovasculares (efeito), por exemplo, seria esperado que, em estudos observacionais, essas variáveis estivessem diretamente relacionadas.

Mas não é isso que é verificado. Muito pelo contrário: no caso do café, todas as meta-análises de estudos observacionais mostraram que essa bebida não apenas não está relacionada ao risco de problemas cardiovasculares, mas que existe uma associação inversa entre seu consumo e o risco de doenças cardiovasculares — na melhor das hipóteses, isso poderia significar um efeito positivo no sentido de atenuar o risco cardiovascular, tornando o café um alimento protetor nesse sentido.

Por isso, mais uma vez reforço que podemos ter uma boa segurança em dizer que, no geral, o café é uma bebida que não apenas é tolerável para a maior parte da população, mas que pode, inclusive, potencialmente trazer benefícios.

E ainda tem um detalhe interessante. Nos estudos em geral sobre esse assunto, o consumo de café que é avaliado nas populações corresponde, na maioria dos casos, ao café adoçado com açúcares (ou adoçantes). Sabendo que esses são ingredientes potencialmente prejudiciais à saúde, talvez seja ainda mais impressionante o fato de que a maior ingestão de café normalmente esteja associada a um menor risco cardiovascular.

Eu não bebo café, mas parece que quem bebe não precisa se preocupar com a saúde cardiovascular.


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